29.9.06

por Artista?Quem?


O Impostor


NOME: João Venâncio de Souza
NACIONALIDADE: brasileiro
NASCIMENTO: 1° de Abril


MENTIRAS VERDADEIRAS OU MENTIRAS SINCERAS:
(dos 0 aos 3 anos)

-- João sorri de volta a todos q lhe apresentam um belo sorriso ou sacodem uma chave ou fazem cócegas em sua barriga. João chora quando sente medo, quando sente frio, quando faz cocô, quando sente fome, e sempre q é contrariado

LOROTAS OU MENTIRINHAS
(dos 5 aos 10 anos)

--João constrói cidades imaginárias com caixas de fósforo, dirige carros super velozes, se torna Jaspion, o Super-Homem, Batman e o Homem-Aranha na mesma semana, e combate o mal
... e pra ele tudo isso é verdade

ILUSÃO OU DISTORÇÃO DA REALIDADE
(dos 11 aos 17 anos)

-- João transa com as melhores “modelo-atriz-apresentadora de Tv -dançarina” capas de revista masculina sem sair do seu próprio quarto, ele também “fica” com a maioria das colegas de classe (embora seus amigos nunca vejam). Ele vai ser jogador de futebol, acredita que seus pais vão se casar novamente, ele vai parar de dirigir sem carteira de motorista


FRAUDE OU QUASE A REALIDADE
(dos 25 aos 30 anos)

-- João se forma em Direito(embora goste mesmo de Cinema), se torna o orgulho da família. O herdeiro do nada continua vivendo, consegue um emprego, o escritório é pequeno, é verdade, mas ele será o melhor advogado da cidade! O tempo passa e ele começa a faltar ao trabalho por sérias razões simuladas como dor de dente, de cabeça, morte em seqüência dos parentes. Mas ele ainda ama advogar!

A REALIDADE OU VERDADES INDESEJÁVEIS
(doa 30 aos 45 anos)

-- João se casa com uma mulher de beleza estonteante, a perfeita dona-de-casa. Nascem os filhos. O tempo passa e desgostoso ele começa a falar a verdade, e perceber: a esposa (não tão perfeita, não tão bela), a vida (pura ficção), verdades falsas... Já não são mentiras quase sinceras do tempo de bebê, que só serviam pra conseguir o desejado, nem as invenções do imaginário de criança só pra divertir, ou a mentira atrelada ao desejo de aceitação social da adolescência, muito menos uma mentira simples pra faltar ao trabalho. Descobre as imperfeições, começa a ser sincero, começa a morrer lentamente ...não vê graça na realidade... foi adoecendo sem saber por que, já não andava, balbuciava poucas palavras, o olhar sempre estava parado. João morre. De acordo com os médicos de morte natural (?). Seu último pensamento foi a lembrança da mãe dizendo:
-- Mentira tem perna curta menino!



ILUSTRAÇÃO: Artista?Quem?
EDIÇÃO DE TEXTO: Matheus Morais

25.9.06

por Walker Cubano



Sem Razão

E o amor não surge, o amor se faz amor, por ser amor
Ele se faz eterno e se manifesta de diversas formas, basta enxergar
Amor se faz em vida, em presença e em companheirismo, o amor se faz e pronto
Não existem razões, porquês ou explicações, amor se sente
E se busca, tenta-se, choram por ele, é amor, indiferente a você
Em versos, letras ou rimas, chega acompanhado, carregado,calado
Quem faz alarde é você, que se esconde dele quando ele chega, ninguém o convidou
E eu não o entendo, você também não, aposto
Mas não está só no outro, está só no outro se o outro quiser
E decepciona, cala, entristece, abre caminhos, mostra possibilidades
E você oferece a quem nunca o mereceu, e você vulgariza o verbo amar
E diz Eu te amo para qualquer um, tolice, a vida ensina
O tempo soluciona as dores, apaga os estragos e inibe o sofrimento
E as horas mostram que o amor nunca acaba, se esconde, como uma doença fatal
E são tantos porém, entretanto, como, talvez...
Tudo se constitui em amor, família, amigos e o amor em si
Esmiúce o tal amor, viva, sinta e ame
Erre por amor e quem nunca errou?
Ame por amor e quem nunca amou?
E nunca siga os conselhos de quem ama




Para meu avô Ciro, um amor eterno e inesquecível, apesar dos diferentes planos espirituais.
Para minha mãe, que me ensina a arte de amar todos os dias de maneiras distintas.
Para minha irmã e meu pai, amores que estão tão longe geograficamente de mim.
Para todos aqueles que eu amo e que um dia eu amei.
Para meus amigos, amores escolhidos ao longo da vida.

ILUSTRAÇÃO: fotografia "Bodas" de Artista?Quem?

19.8.06


Ao longo do mês de agosto a equipe do Ao Cubo se propôe a fugir um pouco do padrão das postagens anteriores, onde uma imagem apenas ilustra o texto. Agora o texto "ilustrará" a imagem, ou seja, partimos das imagens e através delas criaremos os textos. Espero que gostem. Bon Apettite!

Artista?Quem? transcreve imagem de .g


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À Dois

ELA: e essa foto, lembra?
ELE: claro que me lembro.Você sempre tinha um sorriso pra mim
ELA: pois é, passado...
ELE: depois do primeiro mês até meu cabelo cortei por sua causa... meu idealismo foi por "água-baixo"
ELA: lembra que tínhamos combinado dizer quando um de nós não quisesse mais?
ELE: por quê será que não cumprimos a promessa? tínhamos total noção de que o ser humano é sempre composto por outro. um par
ELA: é mesmo. um par...para a roupa, o corpo
ELE: para a empresa, cliente
ELA: todo artista usa uma máscara. toda mãe tem o filho pra criar
ELE: todo irmão tem outro irmão pra acompanhar ou até memso brigar
ELA: toda banda tem um fã...apesar de que a sua nunca teve nenhum!
ELE: (RISOS) não tinha mesmo...todo pacifista morre violentamente
ELA: todo cidadão com mais de 60 primaveras tem uma história pra contar
ELE: toda beleza precisa dos olhos alheios para ser admirada
ELA: pois é, já notou que existem coisas que só podem ser feitas à dois?
ELE: tipo o que?
ELA: dança, disputa
ELE: xadrez
ELA: conversa
ELE: luta!
ELA: abraço, beijo, SEXO!
ELE: você gostava do sexo?
ELA: ...e você ainda pergunta? claro!
(RISOS)
ELE: incrível, a gente ainda consegue rir de nós mesmos...pra quê terminar?
(SILÊNCIO)
ELA: não sei...vou pensar...não dá mais
ELE: não prevemos isso
ELA: na verdade ninguém prever que o amor pode se tornar amizade...
ELE: toda panela tem sua tampa
ELA: é. deixa estar
(SILÊNCIO)
ELE: guarde um "sim" pra mim
ELA: sim

14.8.06

Walker Cubano transcreve imagem de Artista?Quem?

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O impacto do Buda Nagô

E lá estava eu, sentado, meio que largado no sofá da sala de casa, meio desatento como é de costume, quando repentinamente surge a imagem daquele homem na tela da televisão: Um homem magro, abatido, sentando em uma cadeira de rodas, vestido com uma blusa azul, cabelos brancos, olhar sereno, sorriso rasgado no rosto, era um homem feliz por está de volta à sua terra, era ele, o mestre Caymmi, Dorival Caymmi, 92 anos de história viva e lúcida para receber homenagens. E falar de Caymmi é falar da história da música popular do Brasil, de versos lentos acompanhados por um violão suave, embalados pela voz baiana, amor incondicional à Bahia, de 1914(ano de nascimento de Dorival) até os dias de hoje.
E me revirei no sofá, os olhos brilharam, parei, a desatenção sumiu, atenção, Caymmi voltou para receber o prêmio Jorge Amado de Literatura e Arte, e já não me importava se ele estava em cadeira de rodas ou com a fisionomia abatida, a sensação agora era de contentamento, alegria em ver. Temos( e me incluo neste “temos”) o péssimo hábito de fazermos homenagens póstumas, homenagens singelas e tocantes sim, mas homenagens póstumas, o sujeito morre e logo fazem uma homenagem póstuma. Aqui, acontecia de maneira diferente, era uma homenagem a um senhor de 92 anos, vivo, em perfeitas condições mentais de receber e entender tal homenagem, um alívio para os que odeiam(assim como eu) as malditas homenagens póstumas.
É, aposto com qualquer um que existem milhares de Marinas por aí que não sabem que existem uma música com seu nome, como também há muita gente que não sabe o que é que a baiana tem, e pessoas que desconhecem como é bom ver o mar em Copacabana. A vizinha do lado também não sabia que Caymmi compôs uma música só para ela, coincidentemente intitulada de “A vizinha do lado”, os apaixonados que não conhecem “Nem eu”, não estão apaixonados e os pescador que nunca cantarolou “um pescador tem dois amor, um bem na terra, um bem no mar...”, da mesma forma não possui histórias para contar...
E ver Dorival (intimidade de baiano para baiano) foi de uma emoção indescritível para este jovem de 21 anos, porque ouvir, ler ou simplesmente ver a imagem de Caymmi é ter a sensação de está em paz consigo mesmo, é se sentir em plena festa de Iemanjá nas tardes das rotinas enfadonhas, é viver deitado na rede branca, debaixo de um coqueiro, esquecer o trânsito infernal, a falta de educação e a violência da Bahia dos dias de hoje. E em instantes estava bem, de férias da minha alma e com orgulho de ser baiano, sandálias de couro no pé, ou simples havaianas de dedo (como se dizia antigamente) E em tempos de efemeridade, na vida e na música, foi tão bom revê-lo, em dias de pseudos- versos, batuques mal batucados, sambas que se transformaram em pagodes mal pagodeados, fiquei feliz. A história permanece viva, a alegria, a música e o talento continuam “aí” para quem quiser ver, para quem quiser ouvir e para quem quiser ver
(como eu vi) e aprender um pouco mais. Ninguém vai cantar Itapoã como Caymmi cantou, ninguém vai cantar e contar a Bahia como Caymmi cantou e contou. Levantei do sofá, abri a janela, olhei para o céu, o sol brilhava, não havia uma nuvem se quer naquele emaranhado de tanto azul, coloquei meu chapéu de palha e decidi: Vou para Maracangalha!


* Para Luana Rocha e Pedro Caldeira



Para ler ouvindo-

Para Caymmi, de Nana, Dori e Danilo - 90 Anos (de Nana Caymmi, Dori Caymmi e Danilo Caymmi),
Caymmi 90 Anos - Mar e Terra(Cantores diversos)
Ao mestre, com carinho (de Claudio Nucci).

Para ouvir lendo-
· Dorival Caymmi – O Mar e o Tempo. (Editora 34), de Stella Caymmi, 2001
· Cancioneiro da Bahia, Dorival Caymmi. (Editora Record),1978
· Dorival Caymmi SongBook. (Lumiar Editora - 2 Volumes), de Almir Chediak, 1994


Discografia do artista disponível em: http://www.sombras.com.br/dorival/dorival.htm#discografia

30.7.06


Dos ruídos inaudíveis
_______
Por .g


Nesse exato instante, ouço um disco ímpar. Trata-se de Brad Mehldau, um jazzista contemporâneo, de sonoridade bem peculiar, pungente, caracterizada por suas desconstruções, reconstruções e improvisações. No disco em questão, "Solo Piano - Live in Tokyo", Mehldau interpreta desde clássicos do jazz --como "Things Behind the Sun", do ultra-intimista Nick Drake ou "From This Moment On", de Cole Porter-- à música moderna e experimental do Radiohead --aqui representada por "Paranoid Android", canção que o pianista reconstruiu num arranjo de aproximadamente vinte minutos de duração, sendo que a versão original tem pouco mais de seis minutos.

Mas não quero concentrar aqui minha visão sobre a quintessence da arte de Mehldau; não tenho a pretensão de me aprofundar numa análise sobre o artista. O que tenho reparado ao ouvir "Live in Tokyo" são os pequenos sons, aparentemente inaudíveis e insignificantes para boa parte de quem os ouve. Atenho-me ao som, por exemplo, do movimento dos pedais do piano (o impacto do metal com a madeira), dos aplausos, ou do tossir de alguém da platéia no final de uma música.

O mesmo me ocorre ao ouvir um disco de Björk, Vespertine Live, versão ao vivo do disco no qual ela --no intuito de criar uma atmosfera fantástica, paradisíaca, etérea-- utilizou, dentre coral, beatboxes e orquestra, uma caixa de música em algumas das canções. Em Vespertine Live, é possível ouvir o som das engrenagens da caixa de música, o girar da manivela antes de se iniciar "Pagan Poetry", o regente Simon Lee folheando o livro de partituras, o som do sal grosso --que também funciona como “instrumento”-- numa caixa, pisado por M.C. Schmidt, um dos integrantes da dupla Matmos, convidada para participar das gravações e da turnê do disco.

Pois então, em minha parca filosofia de quem toma banho confabulando sobre as possíveis conspirações acerca da morte de Hafik Hariri, cheguei aqui pensando no quão interessante e prazeroso é ouvirmos os sons para os quais não damos importância no cotidiano, ou num simples CD, como é o caso.

Aplausos, assovios, tosses, vozes, pancadas, giros, suspiros, gritos, pigarros, microfonias, farfalhares, gargalhadas, distorções, rangidos, afinações, gemidos, plugues, grunhidos, desafinações, palhetadas, desplugues... todos esses pequenos sons nos acompanham, por vezes, música a música.

É curioso, mas um dos meus maiores prazeres ao ouvir "Parachutes", do Coldplay, por exemplo, é, ao início da primeira música do disco, sentir o som da palheta deslizando pelas seis cordas do violão, ainda abafadas com a mão esquerda de Chris Martin, antes que as mesmas tenham seus lugares devidamente ocupados com um acorde para que o som do instrumento invada meus ouvidos. Há também o inesquecível pigarro de Kurt Cobain, no início de “The Man Who Sold the World”, no “Unplugged in New York” do Nirvana, a gargalhada contida de Billy Corgan, dos Smashing Pumpkins, durante uma versão acústica de “Mayonaise”, ou os dedos de Caetano Veloso deslizando horizontalmente pelas cordas do violão ao trocar de acorde, gerando aquele ruído característico que sempre marca presença nos bons discos da nossa música brasileira.

São deliciosos barulhinhos bons, propositais ou não, mas sempre uma descoberta única a cada nova música.

Ouçamos mais esses sons, é um exercício para nossa atenção, desperta a audição (isso fica por minha conta), estimula nossas conexões neuronais (idem), nos trazem boas sensações. Eu recomendo. Afinal, se o grande sabor da vida é degustado nos pequenos prazeres do dia-a-dia, tenhamos então algo mais de Amélie em nossas vidas, já que nos martelam tanto a máxima de que “a vida é feita de pequenos prazeres, pequenas felicidades”. Prestemos mais atenção aos ruídos mínimos que nos cercam, dando vazão aos sentidos mínimos dos quais dispomos; sensibilidade é um pouco disso, acredito.

Mas, em verdade, isso é só a psicose de quem quer estuprar uma arte através de uma composição inepta, ou a parvoíce de um pobre blogueiro que, encurralado pela dúvida de postar um ou outro texto, acabou criando um terceiro ainda mais ridículo.

Bem, no mais é isso... Ah, e diga a toda a família que mandei um beijo.

(silêncio)



da ilustração: gentilmente cedida (?) pelo site the melancholy rhino - a sceptical manifesto